PDF

O espelho despedaçado: cinco poemas para uma memória negra

John Mundell

 

A língua deixa a mente recordar. Recorda eventos, palavras, emoções, coisas que viveu.  Também coisas que não viveu, pois não há uma obrigação de experimentação própria para a recordação. Quando nos lembramos de nossa vida e, até arguo, de nossa história nacional, é claro que essas recordações não serão cronológicas, senão momentos destacados de uma época que consideramos distante. Embora, com a idade do tempo, isso também possa ser relativamente próxima. Nos últimos versos de seu poema “Cambridge”, Jorge Luis Borges escreveu: “somos nossa memória, / somos esse quimérico museu de formas inconstantes, / esse monte de espelhos rotos” (minha tradução).[1] Assim, é na tentativa de juntar os pedaços dos espelhos, nossa memória, que construímos o passado, facilitando uma autoimagem no presente, apesar de que o que lembramos não seja exatamente como ocorreu nem necessariamente algo concreto. Como Borges instrui, a poesia apresenta-se como o gênero perfeito para essas imbricações confusas entre a realidade, a fantasia e o tempo. Esforço-me, então, para demonstrar através da poesia como lembramos e esquecemos da violenta questão racial no Brasil.

 

Não vivi tudo que apresento aqui na minha tentativa de me chamar de poeta. É particularmente na questão superficial que muitos me duvidam. E quiçá devam. Sou um homem branco, sou estadunidense. Ora, para alguém de minha origem “bio”-geopolítica, tratar de questões raciais no contexto brasileiro de uma forma criativa, ou ouso dizer literária, pode aparecer ameaçador. Embora eu escreva aqui sobre questões negras, sou mais um; sou apenas um outro Castro Alves que nunca experimentou, respirou e foi forçado a se alimentar todos os dias do preconceito racial alheio. Entretanto, não foi nem a culpa nem a pena que deu à luz a este interesse, senão um reconhecimento de que a maneira em que [não] abordamos a raça/cor no Brasil, e nas Américas em geral, é vergonhosa. Precisamos manter um diálogo entre nós e conosco mesmos para lutar contra este constante empenho empurrado pelo Estado de esquecermos ou de fecharmos os olhos e os ouvidos perante as injustiças.   

 

É precisamente isso que pretendo evocar e, espero, provocar: uma lembrança para a memória brasileira e da coletividade americana que a violência racial que testemunhamos―mas por conveniência quase nunca lembramos―instiga que necessitemos racializar a memória pública. Estas violências patrocinadas pelo Estado capitalista, desde o trato de africanos escravizados e a escravidão subsequente até o embranquecimento e a brutalidade da polícia contra corpos negros, entre outras estruturas abomináveis, fizeram com que os afrodescendentes nunca viessem a ser considerados elegíveis para a pessoalidade, isto é, qualificados para serem tratados como pessoas cidadãs. Deste modo, o corpo negro leva marcas sociais, também ligadas à estética, de inferioridade. É rotulado como destituído, feio, carnal e maluco. É um animal, nunca uma pessoa, a ser mercantilizada igual ao pau brasil―primeiro produto exportado à Europa de terras brasileiras por sua tintura vermelha destinada aos tecidos de luxo―, o açúcar, o ouro, os diamantes, o café, a borracha e o petróleo. Esta negação de cidadania, colorida pelas nuances de capital e seu interesse em vender a cor como acessório, fez essas violências se instituírem como pilares do senso comum ocidental. 

 

Na marginalização consolidada da negrura, rememorar e comemorar as façanhas dos negros se torna desnecessário. São atos inválidos, ou meros imprevistos face àquilo que o senso comum estabeleceu―que a palavra do branco tem mais peso, assim criando um espaço para uma memória hegemonizada. Por exemplo, Luís Gama foi um negro uma vez escravizado então abolicionista, escritor e advogado autodidata, nativo da cidade de Salvador, que também pagou pela manumissão de vários escravizados, vivendo até os 52 anos de idade (1830-1882).  Embora isso, seu contemporâneo, Castro Alves, um branco de privilégio, fazendeiro do interior do estado da Bahia, viveu até apenas os 24 anos de idade (1847-1871) estudando advocacia e proclamando em público seu famoso poema “Navio Negreiro” (1868) que arguiu pela abolição do trato de africanos escravizados: “Mas é infâmia demais! ... Da éterea plaga / Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! / Andrada! arranca esse pendão dos ares! / Colombo! fecha a porta dos teus mares!” Além das belas palavras, Castro Alves nunca liberou ninguém a sós, mesmo com o epíteto “O Poeta dos Escravos”. Porém, não surpreende que o nome dele decora vários monumentos e edifícios no Brasil, e até na cidade onde ele nasceu, além dos inúmeros prêmios literários e eventos epônimos. Diferente dele, Gama dá nome apenas a um pequeno beco no bairro da Lapinha em Salvador. À vista disso, Gama dá o veredicto de “tudo é bodarrada” em seu poema mais reconhecido, “Quem sou eu?” (1859), como resposta ao uso ubíquo do pejorativo “bode” para descrever uma pessoa de descendência africana: “Há cinzentos, há rajados, / Baios, pampas e malhados, / Bodes negros, bodes brancos, / E, sejamos todos francos, / Uns plebeus e outros nobres. / Bodes ricos, bodes pobres, / Bodes sábios importantes, / E também alguns tratantes...”.  Pela hipocrisia presente em uma sociedade brasileira onde a escravidão ainda existia―além da mestiçagem corriqueira―“a bodarrada” que descrevia a população inteira serve, então, para pintar esta mesma ironia da memória pós-morte de Gama vis-à-vis Castro Alves.    

 

De acordo com a proliferação da miscigenação entre brancos, negros e indígenas desde as primeiras décadas da colônia portuguesa, a igualdade entre as raças foi construída ao contrário dos discursos da eugenia do final do século XIX até os 1930. A ideação desta “democracia racial”, embora não o próprio termo, deriva das escritas do sociólogo Gilberto Freyre, como o livro Casa-grande e senzala (1933), que propagaram um estado falso de pazes entre o povo brasileiro na questão de raça/cor. Simultaneamente, Freyre invisibilizou a violência interracial da época atual ao temporalizá-la como fato do passado colonial e imperial do país: o Brasil se converteu naquela época em um estado dirigido por “Ordem e Progresso”, o lema nacional.  Deste modo, os pensadores principais da época não quiseram mais pensar em questões segregadas dos negros, dos brancos e dos indígenas, senão dos brasileiros como um corpus nacional que descobriu um equilíbrio cultural na morenidade. Só aos meados dos anos de 1970, depois da abertura política da ditadura militar (1964-1985), que as vozes de ativistas negros como Abdias Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro (1944-1961), que vaiaram esse equilíbrio como máscara, começaram a ser ouvidas. No entanto, parece que essas vozes negras apenas foram registradas como contributivas aos âmbitos da expressão corporal, artística ou folclórica: os ritmos tocados e dançados como samba e suas derivações, o futebol, a culinária e, por extensão, as religiões de matriz africana. Vê-se esta expressão como estática, arrancada da linha do tempo, o refrão ao qual a nação sempre vai voltar para redescobrir as raízes de sua alma.  É cultura e apenas cultura; não pode ser política.             

 

Portanto, não há espaço para o negro fora do corpus do refrão, como escritor dos versos na memória nacional. Apesar de sua presença, o negro foi teoricamente deixado na senzala, morto pelo tempo, onde o Estado considera a participação social e política dele ilegítima, fato evidenciado nas iterações de racismos institucionais: segregação residencial, violência policial, acesso à saúde e educação de qualidade. O negro, porém, é declarado patrimônio, um território onde a cultivação da cultura nacional se possibilita. O Estado, como na “patrimonização” de alguns terreiros elites de candomblé―casas litúrgicas de uma das principais religiões afro-brasileiras―na cidade de Salvador, ou até o próprio samba como gênero musical, considera essa apropriação como maneira de “proteger” culturas, enquanto também estabelece uma via de acesso para reivindicar a negritude. O negro é, desta maneira, desqualificado não apenas da pessoalidade, senão também da própria identidade politizada dentro da nação brasileira, sempre com um qualificador: afro, negro, Outro. Ele é negado o direito do tempo, a descronologia sendo em si o aspecto que mais caracteriza sua memória: sem lugar, voz e história adequados. 

 

É neste nicho da poesia, em sua desconsideração pelo tempo, que estas recordações, mesmo não vividas pelo eu autor, podem começar a se dedicar à cura das feridas de uma sociedade quebrada. Talvez uma memória negra, tanto cultural quanto social e política, consiga sobressair entre os versos da poesia, seja minha, seja alheia. Daí o ciclo idiomático da recordação toma seu poder e, quanto mais falarmos, mais lembraremos e questionaremos. Procuraremos as poesias de amor por e sobre pessoas que se pareçam conosco, com quem possamos nos simpatizar. Pois, é por esta tradição da palavra, escrita ou oral, que o povo descobre que ele mesmo, em todas suas diversidades, sucessos e sofrimentos, é sua memória―é onde melhor se vê. Melhor dito, é onde mais deseja e merece se ver. Por que, então, não tentarmos remontar o que resta deste espelho despedaçado?

 

[1] "Somos nuestra memoria, / somos ese quimérico museo de formas inconstantes, / ese montón de espejos rotos", do poema "Cambridge" em seu livro El elogio de la sombra (1969). 

    

  

 

  Pau brasil

                                                                Finge burgueses

                                                               aflige bastardos

                                                               tinge pecadores de pios

                                                               atingindo orgasmos

                                                                                                                                       que mancham

                                                                                                                                       alvas e auroras

                                                               escarlates, âmbares, amorenadas…

                                                               ô, desdém pulsante do pau brasil

                                                               pinta cortes claretes

                                                               nas sanguinolências defloradas

                                                                                                                                       de sua semente burlesca!

                                                               cabaços rasgados e tecidos

                                                               novamente nos teares com lorotas

                                                               de linho lavado na chuva fresca

                                                                                                                           pau genuíno

                                                                                                                                       estragado carnavalesco

                                                               o mordente que tira privilégio

                                                                                                               e presenteia periferia

                                                               era prestígio

                                                               agora é parentesco

 

 

  

Griot

                                                                                ―Deve estar bêbado.

                                                   ―Não, é apenas um louco,

                                                   eles disseram.

                                                   ―Talvez seja as duas coisas?,

                                                   fiquei pensando,

                                                   olhando ao homem,

                                                   escuro como uma tempestade

                                                   com relâmpagos empoeirados

                                                   piscando das solas

                                                   que beijavam os chinelos sem jeito.

                                                   Acenou os carros a seu estacionamento,

                                                   vigiando-os o dia todo

                                                   então empinou o queixo cantando

                                                   uma melodia excêntrica que

                                                   alongou com cada respiro,

                                                   com cada tendão no pescoço;

                                                   um muezim chamando

                                                   os carros a rezarem em seu templo,

                                                   um griot contando histórias

                                                   que ninguém queria ouvir.

 

 

 

Johnny

                                                               Meio-dia estreita a forca em minha sombra

                                                               que se pergunta

                                                               onde estão as poesias de amor para os catadores

 

                                                               A morte se cerca dos vivos

                                                               os filhos dele querem pão

                                                               não importa a mão

 

                                                               Uma torre negra de refinamento se curva

                                                               um belo urubu de mundos à parte

                                                               compartilhamos um nome

 

                                                               E ele ainda sorri

 

 

 

Luís

                                                              Numa travessa desta cidade

                                                             pelo seu nome têm bondade

                                                             que, pela grade, vê-se

                                                             a placa azul, uma prece

                                                             pela igualdade, pela mudança

                                                             da qual só resta uma lembrança:

                                                             não importa sua chicotada.

                                                             Aqui tudo é bodarrada.

 

                                                             Evasão e invasão

                                                             do espaço anônimo,

                                                             distorção e confusão

                                                             do passado retrônimo,

                                                             campeão da abolição

                                                             mas é epônimo de nada!

                                                             Aqui tudo é bodarrada!

 

                                                             E sua primeira palavra

                                                             você escreveu

                                                             quando, da materna lavra

                                                             aquele Outro nasceu.

                                                             “Luís”

 

                                                             Mas o nome do Outro,

                                                             cevado no leite da cabrada,

                                                             batizou uma praça, um teatro,

                                                             até uma estância,

                                                             da capital, afastada,

                                                             a linhagem daquele

                                                             sua única abundância cantada

                                                             onde tudo é bodarrada.

 

                                                             Na estrada ao Rio como escravo,

                                                             para ninguém nenhum agravo,

                                                             e aquele nos luxos da faculdade,

                                                             com grandes mentes amizade:

                                                             Nabuco, Barbosa, Machado de Assis,

                                                             Fagundes Varella, Pena,

                                                             mas nenhum Luís.

                                                             Do diploma, da advocacia, da escrita, 

                                                             sua fama ficou aflita, barrada,

                                                             pois, aqui tudo, acredita, é bodarrada!

 

                                                             Todavia, não invoque o Albatroz dele;

                                                             as asas não caberão seu defeito de cor.

                                                             Corações com suas ações você propele

                                                             e ele, com palavras de ingênua dor.

                                                             O pálido Poeta nunca soube a realidade

                                                             que o Bode Negro tinha a verdade

                                                             correndo nas veias,

                                                             de aldeias

                                                             para areias

                                                             então junto às baleias,

                                                             que ele aprendera a se alimentar de correias

                                                             em vez dos navios ocos do Orador.

 

                                                             Mas os moradores do seu beco

                                                             lembram de tudo que você fez,

                                                             da sua história um pandereco

                                                             que afundou uma sordidez

                                                             enquanto pelo Outro eles não sentem nada,

                                                             pois, não os libertou,

                                                             não os inspirou,

                                                             só lembrou da ironia que,

                                                             aqui, na Bahia, tudo é bodarrada!

 

 

 

                                                                                      Afro-brasileiro

                                                                          Do nascente ao poente

                                                                          é afro-brasileiro

                                                                          preto de noite

                                                                          mas uma demão branca de eufemismo

                                                                          seguida por outra de correção política

                                                                          é pouca compensação

                                                                          por noções enferrujadas

                                                                          prefixos pré-fixos no sangue

                                                                          das épocas

                                                                          uma violação linguística

                                                                          um gentílico gentil para a gentinha

                                                                          na expectativa branconormativa

                                                                          que a força não reside na maioria

                                                                          senão no privilégio de não ter

                                                                          quatro letras na frente

                                                                          como reprimenda

                                                                          ao homem infantilizado

                                                                          “moço!” aos 60 anos

                                                                          ralhado ao canto penitenciário de sua mente

                                                                          para pensar no que ele fez

                                                                          no que a sociedade outorga a ele

                                                                          em vez do que ele tem feito para ela

                                                                          para contemplar a impossibilidade possível

                                                                          de reduzir a grandeza do continente

                                                                          mais diverso com

                                                                          3.000 línguas clangorando

                                                                          à metade-de-uma-palavra

                                                                          seguida por uma simples

                                                                          linha

                                                                          uma fronteira

                                                                          um desafio às crianças ousadas

                                                                          “não pise na grama”

                                                                          que vira um jogo de amarelinha

                                                                          no concreto quebrado do beco

                                                                          um ligue-os-pontos

                                                                          no material da pública

                                                                          um cabo-de-guerra injusto

                                                                          porque um lado simplesmente tem mais mãos puxando

                                                                          a caravana hifenizada de escravos do interior à Mina

                                                                          é um ferrete que chamusca uma nova alma

                                                                          é um martelo do leilão que decide seu valor

                                                                          como se esta simples marca pudesse

                                                                          substituir

                                                                          a maldita jornada acorrentada

                                                                          a noitada vomitada

                                                                          a amada jogada

                                                                          substituir

                                                                          o São Francisco pelo Congo

                                                                          a oliva pelo dendê

                                                                          a chibata pela serenata

                                                                          como se esta linha representasse

                                                                          a linhagem

                                                                          de sutilezas miríades

                                                                          e questões da fé

                                                                          uma colher de pau batendo massa de acarajé

                                                                          a trilha aos Palmares na búsqueda

                                                                          da renascença hemisférica

                                                                          porém

                                                                          não é mais nada do que

                                                                          um dedo sinalizando o elegante elevador de serviço

                                                                          o suave cassetete na protesta

                                                                          o abençoado fetiche negado de uma pica-dura

                                                                          da muriçoca que engole mentiras

                                                                          da garganta do sinhô

                                                                          a semente diluída na terra lavrada

                                                                          algemas que abraçam

                                                                          e forcas que afagam

                                                                          na submissão enegrecida à maioria minoritária

                                                                          pois

                                                                          quando a geração chegar no portão

                                                                          finalmente dirá que aquela palavra

                                                                          aquele termo

                                                                          aquela classificação

                                                                          aquilo

                                                                          não personifica

                                                                          o samba do meu sorriso

                                                                          o tango do meu passo

                                                                          o tuíste do meu cabelo

                                                                          o swing dos meus quadris

                                                                          minhas histórias herdadas da vovó

                                                                          meu cantarolar na madrugada

                                                                          minhas lágrimas no feijão

                                                                          a revolução de ser natural

                                                                          e a falta de sensação

                                                                          em tudo

                                                                          quando quero

                                                                          mas não quero

                                                                          ser apenas brasileiro―